Por que a 1ª praça de Guaratuba recebeu o nome de “Alexandre Mafra”?

Quando Guaratuba foi fundada no ano de 1771, o campo aberto em frente a Igrejinha bicentenária acolhia não apenas os moradores da Vila, mas também todos que atracavam suas canoas, ou seus batelões na rua da praia – Marco Zero da cidade, lotados com as famílias oriundas das áreas rurais. Era uma festa, uma alegria sem tamanho vir para a Vila. Aqui chegando encontravam um campo amplo todo coberto pelo tapete verdinho da grama ainda orvalhada. Cabritos, cabras e cavalos se encarregavam de preservar aparados todos os cantos, alimentando-se incansavelmente da vegetação rasteira.

Naquela época o local era palco de memoráveis “Peladas”, quando os jovens se reuniam formando times de futebol compostos de 15 a 20 jogadores para cada lado. Havia em frente a igrejinha o monumento da Santa Cruz, que hoje foi transferido para o lado da mesma, e ali em frente aconteciam então as escolhas dos times.

Contaram-me os mais antigos que o sacristão quando acompanhava o movimento dos atletas, se apressava para encostar as enormes portas da igrejinha evitando que uma bola atingisse algumas das poucas imagens dos Santos ali existentes. Muitas vezes bronqueava com todos, mas a rapaziada se fazia presente nas missas e acabava ficando tudo bem.

Participavam das “Peladas” até o Delegado de Polícia acompanhado de seu subalterno, e como em todas as competições alguns nomes sempre eram destaques, tornando-se presenças indispensáveis nos jogos: Elisio Slveira conhecido por Seu Nenê, Nozor Siqueira, Mario Correia o Tatu, Beneval Correia que saiu de Guaratuba e chegou a jogar no Coritiba Futebol Clube, o Osni, Odilon Mafra de Souza, dono da Sorveteria Bom Sucesso, Luiz Cunha Silveira, mais conhecido como “Luizinho Cadedéia”, que em 17 de fevereiro de 2013 ganhou um belo Busto em sua homenagem com o título de “Eterno Seresteiro de Guaratuba”, pois possuía um vasto repertório musical, não deixando de registrar é claro que dava preferência a valsa “Saudades de Guaratuba”.

Uma valsa composta em forma de boêmia e anárquica, com letra escrita pelo Dr. Darley e a música encaixada uns cinco anos depois…parte pelo Maestro Bento Mussurunga e outra pelo grande Maestro Zilly, e os mais nativos. Também eram destaques o Nézinho Silveira, Airton e Murilo Carvalho, Cartucho, Cide o bom de bola, Nininho, Antonio Marques da Rocha, Baldino, o Parmas que jogava no Corinthians e foi muito bem vindo ao time, quando veio morar por dois anos em Guaratuba.Tinha também o Pedro das Caieiras, o Benjamim Padilha mais conhecido por “Velho Bejo”, o Torrão e o Amélio Souza que era o mais novinho da turma.Em 1922, ano do Centenário da Independência quando o Brasil completava 100 Anos que se havia tornado independente de Portugal, o Prefeito Municipal Sr. João Pedro de Souza, demais autoridades e a população existente na época, previamente mandaram construir no centro do campo, o Marco da Independência. Possuía o mesmo 3 metros e meio de altura, assinalando para a posteridade a comemoração de tão festiva data.

De 1952 a 1955 foi eleito em seu 1º Mandato, o Sr. Miguel Jamur como Prefeito de Guaratuba. Atendendo uma solicitação do então Vereador Odilon Mafra de Souza , mandou projetar e construir a !ª Praça da Vila de Guaratuba. Em um breve bate papo com seu Miguel, me disse que estava em análise e que sua vontade era de também nesta ocasião instalar no Morro do Brejatuba o Busto do fundador da cidade Cel. Afonso Botelho de São Payo e Souza. Seu Miguel então deu nova forma a ao campo transformando-o em Praça. Mandou plantar palmeiras, fazer canteiros, preservar uma ou outra arvore já existente, instalou alguns bancos. Também mandou construir alguns degraus de acesso a Igrejinha e uma parte do calçamento. Por último me disse que a Praça iria denominar-se “Alexandre da Silva Mafra” em homenagem a um ilustre amigo de seu pai Máximo Jamur.Alexandre da Silva Mafra, ilustre varão da Família Mafra era filho legítimo de João da Silva Mafra e Anna Mafra de Miranda. Contraiu matrimônio com Carolina Mafra. Aqui construiu sua história.

Destacamos que no outro lado da Baia, na ramificação da Serra do Mar onde nascem as cachoeiras, o solo sempre foi propício para o plantio do arroz. Por esta razão encontravam-se instalados diversos Engenhos nessa Cordilheira. Citamos dois que ficavam na localidade da Prainha, sendo que ambos eram movidos por uma única cachoeira: um deles era de propriedade do Sr. Manoel Antonio Pereira Batista e o outro do Capitão Joaquim da Costa Braga. Um outro denominado de Engenho da Ribeira cuja cordilheira nascia no Morro do Tanguá pertencia ao “Major Alexandre da Silva Mafra”. Todos funcionavam em casas de madeira cobertas com telhas goivas fabricadas na localidade do Cabaraquara. Registra a história que Alexandre da Silva Mafra saiu do trapiche que existia em frente a Cadeia Velha na baia de Guaratuba, com um grande carregamento de arroz e aguardente.

Era ainda madrugada do dia 09 de outubro de 1922 quando o seu “Cuter Rio Itimirim” veio sofrer avarias ao entrar na baia da Galheta em Paranaguá. Devido o mar grosso estar agitado pelos fortes ventos que vinham do Sul, a embarcação foi arrastada pelas águas perecendo afogado seu ajudante Luiz Vicente de Castro, conhecido pela alcunha de “Vidoca”.

Em 27 de outubro de 1906 pelo Decreto de 16 de outubro do mesmo ano, Alexandre da Silva Mafra recebeu do 1º Vice Presidente do Estado Dr. João Candido Ferreira a nomeação para Prefeito Municipal de Guaratuba.

Em 05 de maio de 1912 o Presidente da república dos Estados Unidos do Brasil nomeou Alexandre da Silva Mafra para o Posto de Major Fiscal do 1º Regimento de Artilharia de Campanha da Guarda Nacional. da Comarca de Paranaguá – Estado do Paraná.

Em 05 de dezembro de 1917 foi nomeado Ajudante de Procurador da República de Guaratuba – Secção do Paraná, pelo então Presidente da República.

Em 30 de Abril de 1931 o General Interventor Federal do Estado do Paraná nomeou Alexandre da Silva Mafra, Prefeito Municipal de Guaratuba, pelo Decreto nº 928 de 17 de abril de 1931. Pelas razões citadas e por outras mais é que o Sr. Miguel Jamur prestou a distinta homenagem ao senhor Alexandre Mafra denominando com seu nome a primeira Praça de Guaratuba. Local onde os guaratubanos viveram grandes e inesquecíveis momentos de suas vidas. Ao cair das tardes as famílias reuniam-se para conversar, ouvir serenatas, encontrar com amigos. Muitas vezes uma fogueira era acesa com alguns gravetos garantindo que a fumaça espantasse os mosquitos.

Durante as festas em louvor a Padroeira Nossa senhora do Bom Sucesso e ao Divino Espírito Santo aconteciam os leilões cantados pelo conhecido “Joaquim Jorge”, cujas prendas eram patos, galinhas e coisas do gênero. Mais do que boas lembranças do passado, a Praça Alexandre Mafra guarda homenagens a homens ilustres e benfeitores do município, como Manoel Ribas e Moyses Lupion, que em 24 de agosto do ano de 1948 dava entrada nesta cidade com a sua primeira comitiva governamental, sendo ele o responsável pelo início da abertura e construção da 1ª estrada Guaratuba/Garuva e cujos Bustos ganharam destaques no Logradouro e o respeito e a admiração do povo guaratubano.

No ano de 1969, mesmo antes da temporada de Páscoa, os muitos turistas que vieram à Guaratuba tiveram a oportunidade de se encantar com a nova iluminação toda a vapor de mercúrio, que foi implantada na praça. Antes existiam 14 postes com lâmpadas comuns de 100 velas. A partir da mudança foram instalados mais 15 postes com nova estética, cada um com lâmpadas de mercúrio de 250 velas, e bem no centro da praça, um poste principal contendo seis braços, cada um com uma luminária de 250 velas. O modelo foi copiado da Praça do Japão de Curitiba, sendo visto e aprovado pelo Prefeito. Foram instalados mais 25 bancos, possuindo pés de cimento e encosto de madeira. Foi contratado nessa época um jardineiro permanente que mantinha a praça sempre em ótimas condições de beleza, ornada com canteiros, flores, bem cuidada e bem iluminada.

Em 29 de abril de 1986 na programação festiva do aniversário da cidade, a Praça Alexandre Mafra foi reformada pela Firma J.Malucelli, com os poderes públicos até onde se tomou conhecimento, nada gastando nesse trabalho, pois foi realizado um acordo entre o Empresário e Diretor da TV Canal 12 e Gazeta do Povo, Dr. Francisco Cunha Pereira Filho.

A praça sempre foi a “Menina do Olhos” não apenas dos nativos, mas também dos turistas que ainda hoje apreciam o delicioso sorvete da Bom Sucesso, as comemorações cívicas acontecidas com o hasteamento das Bandeiras no Pavilhão Nacional antes instalado no centro da mesma.

A partir da Festa do Divino do Casal Júlio e Valéria a praça passou a ser utilizada para instalações de barracas ao seu redor. A feirinha de Artesanato, os Autos de Natal, as cantorias , serenatas, encontros de jovens enamorados e muitas outras atrações marcam a história dos 61 anos de existência deste logradouro tão importante para a cidade de Guaratuba que neste 29 de Abril de 2016 estará festejando seus 245 anos de fundação. Muitas foram as melhorias realizadas, como reformas, mudanças de canteiros, paisagismo e outras transformações que deixam registrados na memória do povo hospitaleiro que aqui residem ou visitam um dos pontos turísticos mais frequentados de Guaratuba.

A beleza da arquitetura da Igreja Matriz construída para a fundação da cidade é parte integrante da praça.